Na última década, 31 milhões de pessoas ingressaram na classe C, segundo dados da Pesquisa de Amostra Domiciliar (Pnad), feita pelo IBGE. Esse resultado representa um crescimento de 48% no número de pessoas no mercado consumidor. Com esse aumento, somado à baixa cotação de moedas fortes como dólar e euro por conta da crise financeira mundial, o mercado consumidor brasileiro está fazendo a festa.
Jussara Soares, professora, conseguiu comprar aparelho televisor e trocou sua máquina de lavar nos últimos anos. Mas o que desejava mesmo era um iPad, da Apple, que no Brasil custa quase R$ 2 mil. “Por causa dos preços baixos, uma amiga minha – também professora – conseguiu fechar um pacote de viagem e vai para Miami, nos Estados Unidos. Lá, ela vai comprar para mim o iPad, que sairá por apenas US$ 500,00”, conta, animada.
Um estudo realizado pela consultoria de marketing GS&MD Gouvêa de Souza, intitulado “As tendências de consumo na visão de quem compra”, apontou que os produtos mais adquiridos com a baixa do dólar são os eletroeletrônicos como computadores, televisões de plasma, aparelhos de som e smartphones. Principalmente os importados. Murilo Jovtei, sócio-consultor da consultoria de negócios Go4!, explica que os produtos importados atraem mais o consumidor porque tendem a ter mais qualidade e são diferentes.
O professor de educação financeira, Pio Mielo, conta que, pelo olhar do consumidor, a desvalorização cambial é excelente, ainda mais se considerarmos que o brasileiro viveu três décadas com demanda reprimida e períodos de escassez. “É natural que, com o País em franca expansão e atraindo capital internacional, a chance de o brasileiro comprar um bem aumente. É injusto falar para o trabalhador brasileiro, que esperou a vida inteira por isso, não consumir. É chegado o momento de fazer a viagem sonhada e comprar o eletroeletrônico que sempre desejou”, afirma.
Não é só a compra de produtos que está em alta. O professor de economia da FATEF, Roberto Carlos Alves de Oliveira, conta que, com a queda do dólar, viajar também ficou muito mais barato. “O brasileiro, inclusive, tem quebrado recorde de despesa no exterior com a possibilidade de comprar produtos importados e realizar sonhos de consumo”, diz.
O brasileiro pode aproveitar as inúmeras oportunidades de compras, mas não deve esquecer sua real condição financeira. “O preço está bom, de fato, as condições estão boas, mas é preciso analisar a capacidade de caixa do consumidor num futuro próximo para não entrar em um ciclo de dívidas”, aconselha Mielo.
Para não endividar
É preciso controlar a tentação. Oliveira explica que, quando o consumidor ascende social e economicamente, ele se arrisca em novos patamares de consumo. “Só tem que tomar cuidado para não se animar demais com os preços dos produtos e acabar gastando mais do que devia”, aconselha.
Jovtei diz que as pessoas acabam se empolgam com o baixo preço, mas não têm dinheiro para consumir, então pegam dinheiro do banco e, assim, comprometem sua renda com dívidas. Para não cair em dívidas, ele recomenda que o consumidor gaste o dinheiro que tem e não o que acha que terá. “É melhor poupar para consumir do que consumir e depois se virar para pagar”, garante.
O consumidor não precisa ficar afobado para aproveitar o preço baixo. Afinal, segundo Oliveira, o cenário da economia externa deve continuar como está. “O dólar não vai se valorizar tão cedo. Por um bom tempo teremos essa situação econômica favorável ao sonho de consumo do brasileiro”, afirma.